Zé Cristo

O clã dos “Cristos” metia respeito: o Manel, na casa dos vinte e oito anos, o João, com menos dois, o Chico, recém vindo da tropa, cujo tempo passara, na maior parte, no forte da Graça, em Elvas, e o ganapo – o Zé – a atingir os dezoito anos, dentro de dias.

Todos iam acima do metro e oitenta.

Não havia festa, ou descante, onde os quatro irmãos não aparecessem, com ar provocador e, por vezes, munidos dos respectivos paus – que punham sobre as omoplatas, formando uma cruz, com os braços –.

Daí derivava, ao que se pensa, a alcunha que ostentavam, vinda já dos seus antepassados e que não ligava ao apelido da família: Alexandre.

Os paus constituíam um verdadeiro adereço; eram vulgaríssimos, na época.

Tratava-se de uma vergôntea de marmeleiro, bem seleccionada e seca longe do sol, com uns dois côvados, ou uma vara – o côvado media 66 cm e a vara 11 decímetros –.

Conhecemos apenas duas utilidades a estes paus, que qualquer homem que se prezasse exibia nas feiras e mercados: para conduzir o gado, ou para se apoiar.

Uma outra utilidade – como padrão – era pouco aplicada.

As zaragatas eram, de facto, o terreno mais vulgar para o uso do pau.

Nas aglomerações e festanças, dos meios rurais, disputava-se o jogo do pau, mas o verdadeiro uso do mesmo era no costado de um qualquer adversário, quando o ensejo tal proporcionasse.

Todavia este e outros costumes foram-se extinguindo, devido à proliferação da GNR e firmeza de Regedores e Cabos de Ordens, nome por que na região eram designados os Juízes de Paz.

Os magotes de rapazes, que andavam de aldeia em aldeia, nos bailes, descantes e festas, deixavam os paus escondidos de forma que pudessem dispor deles, em poucos minutos, se necessário fosse.

Nos torneios de jogo de pau disputavam-se prémios e honrarias, de que qualquer homem se prezava.

Ouvia-se contar, aos mais velhos, que no descante do casamento da mãe do Ti’Chico “Manajeiro”, houve uma zaragata, provocada pelos rapazes de Alcaravela, em que foram partidas mais de vinte cabeças e imobilizados mais de uma dúzia de braços.

Talvez, por isso, “o Manajeiro”, era o maior amigo da ordem e do respeito.

Quase todos os “Cristos” tinham já passado pelas companhas do Ti’Chico; esse ano ia o Zé Cristo, como aprendiz do terceiro ano.

Passaria à condição de camarada no final da safra e, no ano seguinte, teria já todas as condições de “oficial”, nomeadamente soldada por inteiro e direito a prémios.

Os aprendizes recebiam, por norma, duas décimas, no primeiro ano; 3 décimas, no segundo e três quartas, no terceiro ano.

No quarto ano, ou não eram mais chamados para as companhas, ou eram-no, na qualidade de camaradas.

O Zé Cristo era teso, caladão e ligeiramente vesgo – chamavam-lhe “zanaga”-.

Era o mais alto da companha e em largura de ombros, não havia quem se lhe comparasse.

Falava pouco, mas, em contrapartida, comia por três ou quatro.

A trabalhar, uma máquina; os moços, que seguiam no seu encalço, viam-se e desejavam-se para atar os molhos e fazer os rolheiros, atrás dele.

Um dia, um dos moços, o Benvindo, chamou-lhe “caga-molhos”, pois não conseguia manter limpa a área de corte do Zé Cristo.

Tanto bastou para que o Zé pousasse a foice e, pegando pelo atilho das calças elevasse o garoto bem alto, no cimo do longo braço e parecendo mostrar um troféu a toda a companha.

Depois, pô-lo, cuidadosamente, no chão, tornou a pegar na foice e começaram a amontoar-se, atrás dele as gavelas ceifadas.

Sorrateiramente, como era seu hábito, o Ti’Chico, fez sinal ao Manel Carolo, em cujo grupo estava o Zé Cristo, e afastou-se da frente de corte, para que o Lopes e o Duque, camaradas que iam ao lado do rapaz, normalizassem a situação.

Uns minutos depois, fitou o Zé Cristo nos olhos – que nessa altura ficaram mais vesgos e baixos – e apenas disse: é a primeira e a última vez que, nesta companha, alguém falta ao respeito; se voltas a fazer alguma das tuas, racho-te!…

Aqui, somos todos homens, e no que ao respeito diz respeito, até os moços o têm de ter.

Este caso foi edificante.

Muito ao modo como o Ti’Chico costumava actuar; batia pouco, mas, quando o fazia, era inexorável e altamente eficaz.

No resto dos dias da companha não houve mais qualquer altercação. E voltaram todos mais amigos que quando partiram.

No fim da companha, o manajeiro reuniu os chefes de grupo e disse o que pensava fazer com as soldadas.

Tudo esteve de acordo.

O Ti’Chico dividiu a totalidade do dinheiro em 40 partes e atribuiu uma a cada um dos trinta oficiais.

As dez que ficaram – as dos aprendizes –, eram para os cortes, cujas quantias iriam fazer os prémios para compensar o mérito de cada um.

Nessa altura tomou a palavra e chamou o Zé Cristo, entregando-lhe uma maquia igual à dos camaradas, dizendo que mostrou corpo, disciplina e trabalho como os melhores, e que a justiça deve sempre ser praticada.

Ninguém se opôs.

Foi a primeira vez, nas memórias das companhas, que um aprendiz foi promovido em pleno campo de trabalho.

Pela justiça da decisão, o Ti’Chico “Manajeiro”, como sempre ficou conhecido e será lembrado, ainda hoje, é apontado como exemplo de capacidade de liderança e espírito de justiça.

Quanto ao Zé Cristo, aceitou as palavras sábias do “mestre” e não consta que alguma vez mais se tenha envolvido em desavenças.

Publicada por Jose Marques Valente em
http://historiasdegentesimples.blogspot.pt/2013/06/ze-cristo.html

Grupo de Jogo do Pau de Bucos, final dos anos 60

[facebook url=”https://www.facebook.com/1681846555371302/videos/1689976627891628/” /]

Video do Grupo de Jogo do Pau de Bucos, no final dos anos 60.

Primeira metade do vídeo com paisagens da região, comentário sobre o jogo do pau, demonstração de várias situações, moinho, jogo do meio, jogo contra 2, contra jogo, seguido de treino dum grupo de juvenis.

EN: Jogo do pau video from the 60s with diverse forms of practice, one on one freeplay and multiple opponents. Includes a kids class. (action starts around the middle of the video)

https://www.facebook.com/1681846555371302/videos/1689976627891628/

“Bucos, terra já bastante antiga, desde sempre teve jogo do pau. Desde os rapazes que andam com os rebanhos na serra, até toda a gente que anda com os seus gados, todos desde rapazes começam a jogar ao pau. Isso vem desde os nossos avôs, os nossos antepassados, esta série de coisas que realmente através de todos os tempos tem continuado, e continuará, porque não se deixa esquecer, dos velhos para os novos, e os novos continuam a ensinar aos filhos deles as mesmas coisas. É tradição da terra, que manteve isto em toda a região de Cabeceiras de Basto e Fafe, porque realmente, em Fafe, na antiguidade, existia a Justiça de Fafe, em que realmente era o pau que mandava. Hoje, como as armas de fogo acabaram com o jogo do pau, isto manteve-se por uma questão de curiosidade, porque por si, já não tem valor, varrer feiras, nem bater em ninguém, nem fazer mal nenhum a alguém. É um desporto, um desporto que na aldeia que não tem outros jogos, se mantêm, e continua a manter, como digo. talvez por bastante tempo.
Hoje, porque muita gente tem pedido, criou-se um grupo de juvenis de jogo do pau, através do senhor Hernesto dos Santos, que tem tido o cuidado de os ensinar, tem um grupozito a formar-se, que vai existir daqui a 30 ou 40 anos, porque é tudo gente jovem. (…)”

ジョーゴ・ド・パウ – ポルトガルの伝統棒術

Pequeno artigo japones sobre a cultura portuguesa, fala do fado e do jogo do pau.
Para quem percebe, fica aqui, para quem não percebe, tente o google translate, que pode ajudar.
Parece ser num programa de radio ou tv? Se alguêm perceber melhor e copnseguir dar informações agradeço.

diary_img_090806
Imagem retirada de: http://www.ixa.jp/diary/2009/200908/index.html

ちちんぷいぷい 2013年9月16日放送回
山中アナウンサーはポルトガル共和国を訪れた。 これまでは、日本とポルトガルのご縁や金融危機の今の状況やポルトガルの現地の魚好き事情を伝えた。 今回は、ポルトガルの伝統文化を紹介する。

山中アナウンサーは2週間にわたるポルトガル取材で日本とのつながりが深いなどいろんなことが分かったと伝える。 今回紹介するのは、ポルトガル伝統の音楽と踊りで、音楽は民族歌謡「ファド」で日本で言う演歌に近い、ポルトガル北東部に伝わる踊り「ジョーゴ・ド・パウ」を説明した。

ポルトガルの首都・リスボンは起伏の多い町である。 そんなリスボンの移動手段は路面電車があり、市民の足となっている。 また、リスボンの街の中心地には丘の上と下をつなぐエレベーターがあり、1902年に建てられた。

リスボンの街を歩いていると音楽が聞こえてきて、ギターを引いていた男性に聞くと「ファド」について教えて貰った。 山中アナウンサーは「ファド」が聞けるという夜のバイロ・アルト地区へ向かった。 ここには「ファド」が聞けるお店が数多く並んでいる。 「ファド」は人生などの意味を持ち、貧しい人々たちの娯楽として生まれたと言われる。 また、通常「ファディスタ」と呼ばれる歌い手が入れ替わりで歌うがお客が飛び入りで歌うこともある。

ポルトガル北東部のみで伝えられている「ジョーゴ・ド・パウ」を取材するためにミランダ・ド・ドウロへやって来た。 「ジョーゴ・ド・パウ」は元々他部族との戦いに勝利した際に踊ったもので、当時はナイフなどを使っていたが現在は木の棒使っているなど当時の服装を民族衣装で再現している。 また、山中アナウンサーは「ジョーゴ・ド・パウ」の基礎を習い挑戦した。

スタジオでは、VTR を振り返ってトーク。 山中アナウンサーは「ジョーゴ・ド・パウ」の基礎の基礎を教えてもらい、ゆっくりした動き挑戦したがそれでもハードだったと話した。 また、「ファド」についてやポルトガルの夜の街についてトークした。

http://tvtopic.goo.ne.jp/kansai/program/ytv/41514/211817/

Momentos dos anos 80 – Snapshots from the 80s

Por volta dos anos 80 houve um trabalho de pesquisa sobre o jogo do pau português, numa altura em que ainda existiam mais alguns mestres e escolas activas do que existem actualmente. Deixo aqui algumas imagens de vídeos recolhidos por Nuno Russo, Chico Secio e Paulo Oliveira no ano de 1985.

EN: Around the 80’s there was an effort in researching some of the surviving jogo do pau schools of the time, most of them are unfortunately gone by now. Here are some frames from some of the movies colected by Nuno Russo, Chico Secio and Paulo Oliveira in 1985.

Assalto de Jogo do pau realizado por 4 meninas em 1955

Abertura da festa desportiva, que consta de um grandioso assalto de JOGO DE PAU, executado por 4 meninas, todas filhas da localidade, pela primeira vez, no nosso país apresentar-se-ão em público, executando a esgrima genuinamente Portuguesa, tendo sido seu instructor o sr. José Augusto Tavares com a colaboração do professor e mestre sr. António Moleiro, que com os seus vastos conhecimentos deliciará a assistência com a apresentação das gentis meninas Francisca do Carmo Inverno, Berta Maria da Silva Nascimento, Cezaltina Couceiro e Maria do Carmo Baptista.

11047874_869859246416741_1036723859656737737_o

Reconhido de https://www.facebook.com/121615721241101/photos/a.121617344574272.19160.121615721241101/869859246416741/

O Varapau em Coimbra no contexto das praxes académicas.

MOCA: não se sabe com rigor quando é que a moca de madeira foi adoptada pelos alunos da Universidade de Coimbra. A moca tem origem pré-histórica. Na sua qualidade de arma de caça, arma de defesa e bastão de mando, foi usada pelos grupos de caçadores recolectores, tendo passado mais tarde para as comunidades agro-pastoris do Neolítico. Em Portugal, sob diversas formas, sobreviveria nas comunidades populares tradicionais e na Academia de Coimbra até ao século XX.(…)

Curiosamente, nas comunidades tradicionais portuguesas, a moca não foi a arma mais utilizada pelos camponeses. Foi antes o pau ferrado, bordão ou varapau, que os camponeses exibiam invariavelmente em feiras, romarias e deambulações entre aldeias. Alguns paus ferrados tinha ponteira de metal ou aguilhão, servindo simultaneamente para picar o gado bovino e cavalar. O pau era usado em rixas masculinas individuais, combates entre aldeias, jogos rituais e condução do gado. Exibido com garbo, conferia respeitabilidade ao camponês, na medida em que imitava a vara do mando usada pelos mordomos de confrarias, vereadores municipais, juízes de direito e oficiais da Universidade de Coimbra. O pau ferrado foi muito usado pelos estudantes de Coimbra até finais do século XIX, em caminhadas ao Buçaco, Condeixa e Figueira da Foz, brigas entre estudantes e futricas, charivari alegórico de fim de ano e combates rituais no Largo da Feira. Porém, não chegaria a ser convertido em símbolo de práticas praxísticas.

“Notas sobre a Origem académica das Insígnias de Praxe.”


Outro aspecto, prende-se com as “pauladas”, reforçando o que já aqui se avançou sobre Insígnias de Praxe (moca, colher….) onde se questionou a “moca” como ícone praxístico, quando a arma mais utilizada pelos estudantes era, afinal, o varapau.
Troças e Rapanço em Coimbra, in A Liberdade, 23 maio 1890, 20º Anno, nº 1016, p.2“Notas de Imprensa à Troça de 1890”