A LENDA DO HERÓI DO JOGO DO PAU

Há muito tempo vivia uma jovem lindíssima que trabalhava como aia da marquesa, dona e senhora da Quinta das Marquesas, uma propriedade que existia na zona de Sintra.

A propriedade era muito extensa e toda murada e nenhum habitante das redondezas se atrevia a entrar pois sabia que era vigiada por dois guardas armados.
A jovem tinha um apaixonado, um rapaz do povo, mas pouco se viam, só quando o jovem ia entregar algumas mercadorias à mansão e às escondidas conversavam e faziam planos para o futuro.
Chegou o dia em que, como todos os anos acontecia, a propriedade era aberta ao povo pois, nessa altura realizava-se uma festa que era, ao mesmo tempo religiosa e pagã. Religiosa pois fazia-se a procissão em honra da Nossa Senhora das Mercês que estava na capela da propriedade e pagã pois, ao mesmo tempo fazia-se uma feira onde se vendiam os produtos agrícolas, cereais e gado. Também havia jogos e um dos mais populares era o jogo do pau.
Nesse ano, para tornar o jogo mais renhido o caseiro e pai da jovem fez constar que daria a mão da sua filha em casamento ao homem que ganhasse o jogo do pau.

Todos os anos o jogo tinha muitos concorrentes pois era hábito fazerem competição entre as terriolas das redondezas para ver quais tinham os homens mais corajosos, mas parecia, ao jovem enamorado, que nesse ano ainda havia mais homens a competir.

A jovem, sabendo da promessa da sua mão em casamento, ficou destroçada a pensar que iria perder o seu amor para sempre, mas no dia do jogo a esperança explodiu no seu coração pois viu que o seu amado ia concorrer.

A competição começou e estava renhida, havia realmente muitos homens valentes, mas o jovem com a força redobrada por todo o amor que sentia, conseguiu vencer a competição.
Esgotado, roto e sujo apresentou-se ao caseiro dizendo que apesar de achar que era pouco digno de um pai oferecer assim a mão de uma filha em casamento ali se encontrava para reclamar o seu prémio pois estava perdidamente apaixonado pela jovem.

Assim os jovens casaram e viveram muito felizes na propriedade, continuando a jovem como aia da marquesa e o jovem como caseiro.

– Bernardo Teodósio nº5 6ºA – 2010

«A roçadoura é a mesma foice de podar as vides, mas com ponta aguda na direcção das costas, do tamanho de meio palmo acima dela, para poder cortar para o lado, e espetar para a frente, encabada em um pau da altura de um homem, como a figura aqui desenhada ao lado. O manejo desta arma é o mesmo do jogo do pau(…)

“Maria da Fonte – Apontamentos para a História da Revolução do Minho de 1846” – Camillo Castello Branco

Viemos para bater

“a história desses dois cabecilhas da politica local, de Vieira do Minho, o Padre Júlio, da Vila, e o Barroso, dos Anjos, o primeiro que junta mais de 500 homens, para vencer o seu adversário numa verdadeira batalha em campo aberto: o segundo, que lhe opõe 150, mas que eram a fina flor dos jogadores de pau, escolhidos por toda a região, até Montalegre, distribuindo-lhes braçadeiras vermelhas, para eles reconhecerem os demais da sua falange, na confusão da luta.

No dia da refrega, mediadores, receando o que seria o recontro, interpuseram-se e conseguiram que ele se não realizasse: pipos de vinho e vitelas assadas inteiras foram postos á descrição daquelas gentes.

Entretanto, chegavam os de Montalagre  – 20 homens chefiados por um amigo do Barroso – ignorantes da reconciliação: convidados a participar desse festim, ao perceberem o que se passara, recusam altivamente, dizendo que «tinham vindo para bater e não para comer»: e, metendo esporas aos cavalos, deram meia volta e voltaram para as suas terras.”

Festividades ciclicas em Portugal – 1984 – Hernesto Veiga de Oliveira

A romaria á Ermida de S. Silvestre

A romaria á Ermida de S. Silvestre perde-se no tempo, mas o fervor da devoção ao Santo avivou-se depois da reconstrução da capela. Para comemorar tal feito, foi celebrada uma grande missa pelos párocos das duas freguesias – Póvoa e Montalvão – com procissão ao longo de toda a azinhaga (desde a estrada até á capela) e comprado um Santo novo, desta feita de barro, vestido de branco já que S. Silvestre fora Papa.

Entre a Póvoa e Montalvão sempre houve muitas rixas, mas esta questão do S. Silvestre veio ainda reforçar o “ódio de estimação”entre as duas freguesias. Diz-se que as gentes de Montalvão tinham tanta”raiva”ás da Póvoa, por terem sido estes a reconstruir a capela e a comprar um Santo novo, que até insistiram em ter o antigo (de madeira) na sacristia para lhe fazerem as oferendas. Lá diziam eles que “Santos de barro não fazem milagres”. Por causa destas e outras desavenças entre os dois Povos, é aqui nesta romaria, que começam as famosas brigas de pau e pedra em que as azinheiras, na azinhaga que liga a Capela á estrada, ficavam completamente desfolhadas.

Por a Póvoa ser famosa em ter as mais belas raparigas dos arredores, era esta romaria muito visitada. Vestidas com os seus” fatos de Carnaval”, saia encarnada bordada, xailes lindíssimos nas costas e com todo o ouro ao peito eram mais um motivo de desavença entre os rapazes, que ponham todo o fervor numa desgarrada bem cantada e improvisada mas acabando sempre em insultos entre eles e claro numas boas pauladas e pedradas.

-Adaptado do texto de Elisabeth Arez inserido no programa do III Festival de Folclore em 20 Agosto 1994

Maudú-Assú

“N’esta acção se destinguiu pela sua descomunal actividade e força um matulão por nome Manoel Rodriguez, chamado porem Maudú-Assú, ou Manoel Grande. Ia n’um batel com a mulher, que era da mesma côr, e os seus escravos: duas canoas o investiram, mas ele as rechaçou ambas, manejando um varapau com força tal nos intervalos em que a virago lhe carregava o mosquete, que cada golpe era mortal para o selvagem sobre quem caia. Contribuindo mais do que ninguém para a vitoria que os portugueses alcançaram, foi galardoado com uma patente de capitão”

“História do Brazil” – Robert Southey, Fernandes Pinheiro, 1862

O Jogo da Foice

O Padre Casimiro, numa carta ao Rei D. Carlos, datada de 12 de Maio de 1874, propõe uma forma de utilizar um género de lança improvisada feita a partir de uma foice roçadora, utilizando uma técnica baseada no jogo do pau. Referindo que esta proposta já tinha sido pensada por um militar, o Sr. António Joaquim de Barros Lima, oficial em várias guerras desde 1828.

 

(…) Proponho ultimamente à consideração de Vossa Majestade (…) E consiste ela em armar de revolver e roçadora uma ou duas companhias em cada batalhão, para substituírem a cavalaria, e baterem-se com ela, e, principalmente, para nas cargas a ferro frio decidirem as batalhas com mais rapidez e segurança que os botes da baioneta.»

E explica :

«A roçadora é a mesma foice de podar as vides, mas com ponta aguda na direcção das costas, do tamanho de meio palmo acima dela, para poder cortar para o lado, e espetar para a frente, encabada em um pau da altura de um homem, como a figura aqui desenhada ao lado.

O manejo desta arma é o mesmo do jogo do pau, pegando-se dela com a mão esquerda, e com a direita no meio dele para o lado da foice, ficando o ombro direito em frente com o inimigo. Para saber o manejo dela basta aprender a dar um passo para a frente e para a retaguarda, já por um lado já por outro, dando de cada vez, junta com o passo, uma volta de roçadora em redor do corpo e por cima da cabeça para se cobrir das pancadas inimigas, como no jogo do pau quando se faz varrimento; e acrescentando em cada passo, quando o ombro direito fica para o inimigo, uma pontada para a frente ou para ele.

Um qualquer dos vossos Navarros, armado de roçadora, e estando bem convencido da firmeza, serventia e efeitos desta arma, pode arrostar com cem republicanos, nas cargas a ferro frio, e até com os cavalarias ou lanceiro, devendo procura-los sempre pela esquerda ou frente do cavalo, por que por uma e outra parte alcança pouco tanto a espada como a lança, e o rocêna pode espetar o cavalo pelo peito, ou cortar-lhe as pernas, ou os queixos, ou as rédeas.»

“Maria da Fonte – Apontamentos para a História da Revolução do Minho de 1846”

Código tácito de honra.

(…) Nesse jogo «a matar» não havia que observar regras, todos os meios e golpes se usavam, e a maestria constituía somente uma garantia maior de vencer.

Mas existia uma espécie de código tácito de honra, que os bons jogadores seguros de si – e de um modo geral as pessoas bem formadas – não deixavam de cumprir e que exprimia o próprio valor do jogo.

Não se atacava o inimigo que não levasse pau: Quintas Neves mostra o «Manilha» atirando o seu pau para o chão depois de com ele ter desarmado e desmoralizado totalmente três adversários que lhe haviam saltado ao caminho.

E ouvirmos a história de um grande jogador do Porto, o Carvalho, feirante de gado, que na «feira dos 26» em Angeja, perto de Aveiro, depois de se ter aguentado sozinho contra todos os que ali se encontravam coligados, tropeçou e caiu ao chão; então o mais forte dos seus adversários saltou para cima dele em sua defesa, intimando os demais a não tocarem no valente, sob pena de terem de se haver com ele.

Festividades ciclicas em Portugal – 1984 – Hernesto Veiga de Oliveira

A sangue frio

Numa ocasião, por volta de 1926, um dos homens mais temidos pelo manejo do PAU, foi rodeado por opositores que só assim o conseguiram vencer e mesmo nessa situação, não era fácil. O médico encontrava-se em Lisboa onde se tinha deslocado acompanhando um doente, naquele tempo era assim. Chegado o sinistrado, de cabeça aberta e informado da ausência do clínico, não arredou pé solicitando à filha do médico que normalmente o auxiliava nestas situações, que pusesse mãos à obra. Meia hesitante, acaba por aceder e inicia o trabalho dentro das suas limitações.

O valente varzeense, mordendo num lenço para aguentar a dor, e dando coragem à pseudo-enfermeira, ia dizendo:- cosa, cosa … e os pontos lá iam saindo ! Entretanto, teve de largar o doente para acudir ao namorado que tinha desmaiado ao assistir àquele trabalho!

Florindo da Costa Paulo, o varzeense de que estamos falando e que conheci relativamente bem, era um homem de rija têmpera. De figura meã, mas bem entroncado, as suas mãos calejadas, funcionavam como tenazes. Tez queimada pelo sol, na face arredondada saltavam grandes e vivos olhos e chamavam a atenção, a forte barba, em forma de matacões.

Vestindo à homem do “Bairro”, nunca dispensou o varapau, que o acompanhava para todo o lado, mesmo no ocaso da vida.

-José Varzeano

PUBLICADO NO CORREIO DO RIBATEJO DE 9 DE FEVEREIRO DE 2001

Luta com varapaus entre marinheiro Português e alguns Coroados (1850)

“Apontamentos Sobre Os Indígenas Selvagens da Nação Coroados dos Matos da Província do Rio Grande do Sul” Pierre F. A . Booth Mabilde

20.10 – USO DO VARAPAU – ARMA PREDILETA

O varapau é geralmente feito com pau de laranjeira do mato, com uma grossura variável e relativa ã força do indivíduo que dele se serve. Em geral tem uma, ou uma e três quartos de polegada, de diâmetro, por seis palmos, mais ou menos, de comprimento. O pau é todo liso e nunca nodoso – como alguém tem pretendido -, nunca feito com arte, sendo o pau sempre da grossura natural, tal qual é encontrado no mato, sendo apenas descascado.

O varapau é a arma predileta dos selvagens para seus combates no mato, pois reconhecem que, em algumas circunstâncias, as flechas propelidas com o arco não produzem tiro tão certo, devido à espessura da vegetação, na qual tocando a flecha, no seu curso, desvia-se muito da direção em que é propelida. Ser vem-se de flechas somente nos lugares campestres: sobre estradas ou caminhos e no campo. Fora disso, é geralmente o varapau de que se servem para brigar em lugares impedidos e, mesmo, nas suas incursões, é quase sempre o varapau que prevalece.

(Nota n.° 10) Embora sendo o varapau a arma predileta dos Coroados, nenhum exercicio fazem, nem nunca fizeram, para adquirir destreza com aquela arma, que só lhes serve para agredir e com a qual não sabem se defender. Servindo-nos de uma expressão trivial, diremos que os coroados, com o varapau nas mãos, só sabem malhar com ele ou, como é costume dizer, dar ‘pancadas de cego”. Tão destros como são em atirar com arco e flecha – o que desde a infância exercitarn -, entendem que o varapau, como arma, não está sujeito a um treino que permitisse utilizá-lo como arma defensiva. Entretanto, embora não sabendo usar o varapau como arma defensiva, acham que, estando com ele armados, ninguém existe capaz de, armado igualmente com um pau, com eles medir-se. Tal é a presunção que asseverarn isso como se fosse verdade incontestável, dando risadas quando se lhes contraria esta opinião que fazem de si mesmos e se surpreendem do atrevimento de alguém que lhes queira provar o contrário.

20.11 – LUTA COM VARAPAUS ENTRE MARINHEIRO PORTUGUÊS E ALGUNS COROADOS

Entre os homens que, de janeiro a julho de 1850, me acompanhavam nas matas, havia um português, Manoel José Pereira, que, durante vinte anos, tinha servido como marinheiro a bordo de um navio de guerra português. Tinha ele uma destreza extraordinária no manejo do pau, além da força muscular de que era dotado.

Ouvindo o intérprete dizer-me que os coroados armados com varapau não temiam pessoa alguma, deu umas risadas e pediu-me licença para dizer ao intérprete que ele queria experimentar se, estando armado com um pau, um daqueles coroados seria capaz de lhe chegar ao corpo com o seu varapau. Anuí ã experiência.

recomendando-lhe toda a prudência para não molestar o coroado que se prestasse para a luta. O intérprete comunicou aos coroados a intenção do marinheiro e logo dois se ofereceram para com ele medir-se, dando-lhe um de seus varapaus.

Colocou-se o marinheiro em guarda e deu ordem para que os dois coroados o atacassem, dando-lhes licença de darem com toda a sua força e em qualquer lugar do corpo, onde bem lhes parecesse melhor dirigir as pancadas. Os coroados, vendo a atitude de pouco caso que o marinheiro parecia fazer deles, olhavam um para o outro e se desfaziam em risos sardõnicos que davam a perceber o seu caráter mau, regozijando-se, de antemão, pelo extermínio do marinheiro, que lhes parecia certo conseguir. Entretanto. esse prazer feroz e ameaçador foi de pouca duração.

(…)marinheiro lhes dirigia a palavra ou passava entre eles, se via, claramente, o olhar inquieto e o respeito que lhe tributavam. Ofereciam-lhe logo pinhão ou outro qualquer fruto que tivessem à mão, coisa que nunca – a não ser comigo – tinham feito para quem quer que fosse que me acompanhasse.