Um mês antes do dia fixado para o casamento da Chica, houve na aldeia uma festa à Senhora da Luz.

No terreiro em frente da igreja, raparigas e rapazes dançavam e cantavam alegremente.

À tarde um rapaz propôs o jogo do pau para se divertirem, e convidou o Manuel para seu adversário. O lavrador não ignorava a causa daquele convite, Sabia perfeitamente que o António era seu rival, e por isso acedeu.

Jogaram, o primeiro manejando admiravelmente a arma sorria do entusiasmo quase furioso com que António o atacava.

Este, num momento em que o Manuel olhou para a noiva, seguiu-lhe o olhar e estremeceu. Levantou mais o pau e fazendo-o girar em roda da cabeça, deixou-o cair com força na fronte do adversário.

Aturdido pela pancada, Manuel cambaleou e caiu de bruços sem soltar um grito. Desmaiara. Felizmente a ferida era pequena e passadas algumas semanas o lavrador restabeleceu-se.

Madalena Martins de Carvalho em “A Fatalidade” ~ 1891

“As duas fiandeiras”

Em “As duas fiandeiras” de Francisco Gomes de Amorim, entre outras cenas em que o jogo do pau é “personagem” ficam aqui um par de excertos que se destacam:

Amores de Carpinteiro

Ana, jovial e chasqueadora, tomara a precaução de não gracejar com ele. Rosa conservava-se grave, falando pouco, rindo raras vezes, e empregando mais o império e fascinação do olhar, que sabia ser auxiliar poderoso, do que as palavras, que podiam tornar-se imprudentes. Joaquim amava já a fiandeira mais nova; porém não se atrevia, diante da outra, a mostrar preferências; e confessava a si próprio que não hesitaria em casar com Rosa, se Ana ali não estivesse.

Bastaram poucos dias para se estabelecer familiaridade e confiança entre os três. As raparigas iam-se tornando queridas de todas as pessoas da terra, não lhes faltando presentes dos lavradores abastados, nem convites para os serões das melhores casas. Os rapazes cruzavam-lhes por diante da porta, com ares de frangãos em frente de celeiro fechado; e os mais ricos desejavam oferecer a Ana Estela a sua mão e as suas juntas de bois; mas faltava-lhes ousadia para tanto. A assiduidade de Joaquim Bento fora logo notada; e não se sabendo a qual das duas ele requestava, mantiveram-se os outros a distância, e na expectativa; porque o carpinteiro tinha o seu tanto de bulhento, e jogava o pau como mestre. Alguns, que afirmavam não lhe ter medo, em vez de se apresentarem como pretendentes às fiandeiras, trataram de namorar Maria Rosmaninha, persuadidos de que assim o puniam de ter a preferência daquelas.

Romaria de Balazar

(1845)

— O primo José não traz pau? Foi esquecimento de todos os dialhos! Para estas festas não se vem de vergastinha.
— Cuidas que a cousa dará de si?
— Boa dúvida! O Bento azedou-se por o Pedro conversar a Rosmaninha. Eles ambos são homens; porém o Joaquim joga melhor. O que vale ao primo de Laundes é não se escaldar tanto. Se a pancadaria começa, é a valer. Toda a rapaziada de Laundes e Torroso está na romaria e acode logo pelo Pedro, contra os de Avelomar.
— Isso é assim, Manuel; mas, pela direita razão, quem a tem é o Pedro; porque 0 Bento não quis a Rosmaninha, segundo me consta.
— É verdade. E eu cá ponho-me ao lado do de Laundes, embora se diga que não defendo os da minha terra.
— Aqui não há terra; há a gente fazer o que é direito. Em chegando ao arraial, compro logo cajado…
— É preciso que os haja lá, à venda.
— Sim?… Empresta cá a tua navalha — pelo seguro… E vai andando devagar; é um instante, enquanto arranjo qualquer vara de carvalho. Verde, trabalha-se depressa; e não é pior para abrir caminho, se for necessário.
— Carvalho, castanho, ou espinheiro. . . por ai há deles em barda. Pega a navalha e avia-te. O Joaquim vem de casaca, e traz pau! Basta ver isso, para se tomar sentido. Aquilo é grimpador, como pimpão de feira! Não lhe quero mal; porém, nunca engracei muito com gente briguenta e amiga de barulhos. Anda depressa, que eu vou indo devagarinho.

Manuel juntou-se ao rancho; e José alfaiate cortou tão gigante varejão, que poderia, em caso de necessidade, servir para verga de vela de catraia; e foi seguindo os outros, ao mesmo tempo que ia descascando e alisando o pau, Joaquim tornara-se casmurro, desde a fonte dos Namorados. Ana e Rosa também não davam palavra. O seu bando reuniu-se ao do Lameiro, não por simpatia, mas por um desses acasos, tantas vezes funestos, que, em vez de afastar, aproxima os indivíduos que se não amam.

Pedro Laundes travou conversação em verso com Maria Rosmaninha. Joaquim bem desejaria ouvi-los, ou interromper-lhes o dialogo, provocando Pedro; porém não se atrevia a fazê-lo na presença das fiandeiras; e bem percebia que já tinha causado a frieza delas, com a questão de ao pé da fonte.

Roía, pois, silenciosamente o seu despeito, quando viu aproximar-se, coxeando e abordoando-se ao grande varapau verde, o mestre José alfaiate.

— Que é isso? Foi cortar pau novo?
—É  verdade; torci o pé; e se não trouxesse a navalha, estava bem arranjado.

Todos se interessaram muito por saber como tinha sido a torcedura, e se lhe doía.

— Dói como todos os demónios. Fui a saltar aquele valado das silvas, adiante da fonte, e vai, senão quando, escorrego, o zás!
— Caiu?
— No lameiro… que… por baixo… entendes?
— No lameiro? Não tem nenhum salpico de lama!
— Sim?… pois ai é que está o mal.
— Gomo?
— Quis equilibrar-me, vou contra as malditas pedras, e fiquei…
— Com 0 pé torcido. — acudiu Manuel Fernandes.
— Exactamente.— tornou o alfaiate, agradecendo-lhe com os olhos o auxilio.
— E custa-lhe muito a andar?— perguntou Ana Estela.
— Hum… nem por isso. Ao principio, sim; cuidei que ficava ali. Mas, depois que cortei 0 pau, já vai passando a dor.

Dizendo isto, esqueceu-se completamente de que estava com o pé torcido, e saltou uma poça, sem auxiliar-se do pau. Só Joaquim Bento fez reparo nesse descuido, e começou a estudar-lhe os movimentos. Dai a minutos, viu-o entregar sorrateiramente a navalha a Manuel do Lameiro.”

“As duas fiandeiras” Francisco Gomes de Amorim, 1881

“A Sibila” Agustina Bessa-Luís

sibilaSubitamente, um redemoinho de desordem ferveu, alastrando logo com um corricar de cachopos que se arrastavam sob as pernas do poviléu, e o escândalo ainda morno, ainda lento, das mulheres que reajustavam na nuca os lenços de algodão e buscavam no poial das portas um degrau seguro para abrigadamente presenciarem. Mas a luta embraveceu, magotes como vagas chocaram-se, confluindo das margens do largo, ouvia-se entre gritos o seco rumor dos paus que embatiam, estalavam, eram lançados longe, caindo sobre as tendas ou os arraiais das louceiras. E, então, numa clareira que se foi desenhando mais vazia, mais circular, destacou-se o pequeno vulto de Francisco Teixeira que avançava, grave e tranquilo, repelindo à sua volta o eriçado dos marmeleiros que combatiam, iam cedendo, recuavam, dispersando-se nas alas da multidão que se agitava, ondulando como um corpo que voga na maré. Havia sangue; os andores tinham parado na ladeira e os anjos choravam, não se atrevendo a abandonar o posto, suados sob as vestes debruadas com pele branca, de coelho, as botas amarelas de duraque muito atufadas na poeira. Sob o pálio, o abade, recolhido, mansamente esperava, entre as opas vermelhas cujas pregas o sol riscara de violeta e as filas de crentes ajoelhados sobre os lenços de bolso. «Então essa guarda?»

“A Sibila” – Agustina Bessa-Luís, 1954.

A pena como varapau

Um dos reflexos da tradição do combate a varapau no nosso país é a de que muitas vezes na literatura ou em artigos de jornal ou revista se faz referência à tradição o jogo do pau como metáfora a conflitos, violentos, mas de natureza verbal.

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Essas primeiras horas da República em Lisboa, recordam-nas os bons republicanos, ainda hoje, com um vago deslumbramento de quem folheia uma epopeia de amor, de abnegação e heroísmo. Na antecâmara do ministério da Guerra, conversavam e abraçavam-se, sorrindo homens graduados da república que andam por aí, ao cabo de dez meses, na feira do parlamento e do jornalismo, jogando uns aos outros as mais tremendas e certeiras bordoadas de varapau ferrado. Porque começaram logo os descontentamentos? Será verdade que uma Revolução, para ser esplendidamente fecunda e harmoniosa, precisa de ser bem regada com sangue e não pode, por desgraça, nascer, como a nossa, entre sorrisos de idílio, de perdão e de paz, para vencidos e vencedores?
-“Vida Política” Câmara Reys, fasc. 1º, 12/08/1911


Sarmento abandona os seus livros e, bom vimaranense, maneja a pena a favor da sua terra como se brandisse, temerosamente, o varapau minhoto.
Revista de Guimarães, Volume 37


Das rudezas de linguagem de Sampaio são muitos os episódios, no Paço e fora dele. Sendo, porém, costume dizer-se ter Alves Martins usado um marmeleiro como argumento convincente, melhor poderá afirmar-se ter Sampaio empregado idêntica arma combativa.
-“Livres das féras” Augusto Forjaz, 1915

Cajado contra bisarma

C A PI T U L O XXXXVII- Como o escudeiro achou Bimnarder e da batalha que ele e Godivo tiveram com os selvagens.

(…) Bimnarder se pôs diante com o cajado alto, mostrando que queria guardar a pancada, e um dos selvagens descarregou nele: Bimnarder furtou o corpo vendo descer o golpe, que deu no chão que todo o ferro nele meteu, Bimnarder antes que ele levantasse a bisarma(alabarda) lhe deu com o cajado em um braço tão grande pancada com ambas as mãos que um dos selvagens fez em pedaços: o qual com a outra mão tirou com a bisarma por detrás um revês, e um dos cães que por uma perna o tinha, e o cão por fugir veio a cair no golpe do ferro, que lhe cortou todos os quatro pés cérceos sem ficar nada: já a este tempo vinha Bimnarder com outra pancada alta, e vendo o selvagem não podendo erguer a sua bisarma, tão manhosamente lhe tirou a Bimnarder uma estocada que lhe passou as pernas ambas pelas coxas por ele estar de ilharga com o golpe feito, e não pode furtar o corpo por estar no ar com o golpe que deu ao selvagem na cabeça, que sem nada estava, com que lha quebrou, e caiu  (…)

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“Menina e Moça” de Bernardim Ribeiro – 1554


EN:
A fight scene from a pastoral novel from 1554 of a man (Bimnarder) with a walking staff fighting another with an halberd (a barbarian).

Quick translation of the bold text:

Bimnarder places himself with the staff high, showing his intent to parry the strike, and one of the barbarians attacks him: Bimnarder evades the body and sees the strike falling and hitting the ground with all its metal part going into the ground. Before the halberd is raised again, Bimnarder hits him with both hands with such a strike that one of the hands of the barbarian is broken in pieces: with the other hand the barbarian gives a revez from behind, and one of the dogs, that was close to him, without being able to run away has his legs compleatly cut off: At that time Bimnarder has another strike armed high, he sees the barbarian not being able to raise his weapon, but doing instead a thrust to Bimnader, that went between his legs. Without being able to step out like that, Bimnarder gave another strike to the head of the barbarian, that broke it, and so he fell down.

Chegou em fim a desejada festa,
Onde as nossas Pastoras se ajuntavão:
Já nos frescos lugares da floresta
Os valentes cajados se arvoravão:
Cada qual revolvia na memoria
A vantagem, o premio, a victoria.

O sitio da contenda está patente;
Mas não se entende hum leve desafio:
Com razão se murmura, e toda a gente
Dos Pastores escusa o fraco brio.
Não pude soffrer mais: fui o primeiro;
Que saltei para o largo do terreiro.

No meio com valor me exponho à lucta,
(Cuido que por Amor era animado)
O forte Jonio a gloria me disputa;
Mas depressa ficou no chão prostrado.
Altos, alegres vivas se entenderão
E hum malhado cordeiro então me derão.

Pego nelle, e Themira procurando,
Themira, que mais bella do que a Aurora
Tinha estado tambem presenceando,
Aqui tens, gentilissima Pastora,
Lhe digo então, o premio, que pertence
A quem os corações domina, e vence.

O pejo lhe circula a rubea face,
Fica mais linda, fica mais galante:
Mas antes que o cordeiro me acceitasse,
Vai consultar o parternal semblante.
Pegou nelle, e , baixando os olhos bellos,
Me agradece com termos mui singellos.

(…)

Já na villa se fallava do «bando do Lobo», que infestava a deshoras as ruas de Guimarães, e alvoroçava os pacíficos habitantes com a cantoria de glosas chocarreiras.

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Em contraposição a este bando organizou-se outro, capitaneado por um cutileiro de appellido Raposo.

Os bandos que promoviam arruidos foram durante séculos um «sport» predilecto da mocidade portugueza, a despeito das «Ordenações», que encarregavam ao corregedor da comarca a missão de averiguar se das «competências ou bandos se seguiam pelejas, revoltas, mortes ou outros males e damnos».

Mas a tolerância dos costumes e a própria organização do serviço dos quadrilheiros, que eram tirados d’entre os cidadãos, e não estavam para arriscar a pelle, nem perder as noites, faziam que continuasse impunemente a tradição dos bandos a despeito das «Ordenações.»

A lei, em Portugal, tem sido sempre lettra morta.

Houve por vezes conflicto entre os dois bandos, que a ronda dos quadrilheiros seria impotente, ainda quando o tentasse, para conter em respeito. Ficavam rachadas algumas cabeças, porque os varapaus de lódão, principal arma do minhoto, ensarilhavam alto com o fim de inutilizar a victima, procurando-Ihe o craneo.

O bando do Raposo era talvez mais esforçado que o do Lobo, mas não provava tanta petulância, nem tanta disciplina.

E a razão estava em que, no primeiro bando, todos se julgavam tão valentes como o chefe, ao passo que o Lobo, entre a sua gente, dispunha de superioridade que lhe provinha do talento poético, da odyssea amorosa pelo Porto e Lisboa, das suas fortunas e desastres com a aventureira de Cantão, e até da pobreza em que se encontrava, como todos os bohemios celebres.

Não era a vara de lódão a única arma contundente que o bando do Lobo sabia manejar. O seu chefe, improvisador temível, língua solta e maligna, possuía outra arma talvez mais perigosa para os adversários: era o verso, que chega ao interior dos conventos, dos palácios, das tabernas e alcouces, muito mais elástico, portanto, do que um varapau qualquer.

“O lobo da Mandragôa” Alberto Pimentel, 1904

MANUEL BRAVO E JOSÉ MANSO

Bravo – era era homem gôrdo,
Altivo, muito insolente;
Com todo o mundo gritava,
Arrotando de valente.

Manso era baixo e magro,
Humilde bem comportado;
Cordato sempre com todos,
De todos era estimado.

Ambos visinhos moravam,
E Bravo a todo o momento
Levava a implicar com Manso,
Que o soffria paxorrento!…

Um dia que a paciencia
De Manso foi esgotada,
Pegou este n’um cacete
Deu lhe muita bordoada!!

Trocaram se logo as scenas
Ante o justo desaggravo!..
O Bravo então ficou Manso
E o Manso tornou-se Bravo!!!

-José Antonio Frederico da Silva – 1837

Camilo de Noronha, que , já neste século foi notável como toureiro e varredor de feiras. A sua destreza no jogo de pau era tal, que chegava a um arraial, apeava e destroçava a multidão , atirando homens por terra como uma criança que derrota um regimento de soldadinhos de chumbo.

“O Conde d’Abranhos” – Eça de Queirós 1925

Mais personagens jogadores de varapau

No seguimento de um post anterior, ficam aqui mais alguns personagens jogadores de varapau, na literatura portuguesa:


João da Rua
Estava casada com João da Rua, rapaz muito forte, de maneiras desembaraçadas de quem sabe varrer uma feira com um pau na mão e, com uma foiçe erguida, meter frente a vinte que fossem.

“Revoada de contos” –  Isabel Perfeito de Magalhães e Meneses 1977


Joaquim da Eira
Joaquim da Eira, um rapagão trigueiro, hercúleo, que andara na tropa, tinha fama de grande jogador de pau e prosápia de conquistador

“Maré alta: contos” – José Loureiro Botas 1952


Rosária
nestes seus vinte e dois anos, Rosária era alegre, namorava pelo interesse da vida, porque achava o sol vivificador e a matinal frescura dos campos cheia de exuberâncias. Era uma rapariga de aparência forte, com muitos dotes de masculinidade — trabalhava com vontade, dançava loucamente e jogava o pau como um valentão de feira.

“Comédia do campo: (cenas do Minho)” 1877



Gorgeira, hesitava, no fundo temia o Zé, pois dizia-se dele que usava navalha que manejava com destreza, praticara bravuras com ela em Lisboa, sempre fora lesto, bom jogador de pau, e era homem teso, nunca se acobardava.

“Carneiros em transumância:emigrantes clandestinos” Ricardo Gonçalves 1981


O padre cura
—«Boa noite, meus senhores,— entrou dizendo e deitando para baixo a gola de peles, o padre, novo ainda, espadaúdo, cacete nas unhas cigarro nos beiços, e grossas botas tamancos.
(…)
Era o pratinho do cura meter ferro ao farmacêutico; e este, sabendo isso, não queria responder para não dizerem que dava o cavaco.

O padre cura era o único a quem ele desculpava umas certas graçolas e o único que aceitava na sociedade depois de o saber frequentador da nova. Um pouco por medo, porque o padre tinha génio de varrer uma feira e não raro se fatiava de romarias em que o seu cacete se cruzara com o dos mais pimpões, e um pouco, também, por curiosidade de saber o que se passava no campo inimigo.

“Ambições” Ana de Castro Osório 1903


O avô da Casa das Pereiras
Também ao avô da Casa das Pereiras ninguém lhe levava a melhor ao jogo do pau, contavam-no entre os melhores puxadores do concelho.

“A toca do Lobo” Tomaz de Figueiredo  1966

As celebridades do momento

Quando tornei a aparecer na Nazaré estava tudo em festa. A enorme ladeira que conduz à vila achava-se já cortada de mendigos estropiados, que concorrem ali de todos os pontos do país fiados na afluência de devotos.Chegavam, a cada instante, carros de todos os feitios, carregados de gente; cavaleiros, peões, celebridades do momento chamados jogadores de pau, as romeiras com os seus chapéus enfeitados de rosas, jasmins, e dálias, a mulher que na praça dos toiros havia de farpear metida numa dorna, os que iam a galope para já lá se acharem quando chegasse o cyrio da Prata Grande, ou o da Ericeira, as banhistas da praia em observação critica aos que passavam, a multidão buliçosa d’aquelas curiosas festas, — trinta mil criaturas que durante o ano esperam por esta função, e que, em chegando o tempo dela, largam tudo e correm para a Nazaré.

– “A vida alegre (apontamentos de um folhetinista)” Pg.156,  Julio Cesar Machado (1880)